terça-feira, 23 de outubro de 2007

Retrato de Brasília, por Naiana Bueno segundo Renato Bock


Brasília é uma cidade utópica. Não porque Niemayer a planificou, e sim porque eu não conheço Brasília e, quando eu não conheço, tudo se transforma em utopia ou em mito. O que é muito simpático, pois vejo sem ver e assim me permito fazer seu retrato.

Dizem que Brasília tem a forma de um avião. Hoje isso soa anti-ecológico, pois são os aviões uns dos maiores poluidores da nossa época. Mas também sonha o sonho de todo homem que sempre sonhou em voar. Coisa simples, pois no cerrado o ar quente sobe rápido e os 33 graus Celsius de massa de ar quente fazem quase toda folha de papel voar. Mas em Brasília não tem papel pelas ruas: primeiro porque é anti-higiênico, segundo porque é anti-utópico (toda cidade utópica vive sem papéis), terceiro porque pegaria fogo. Explico-me. Niemayer projetou Brasília já pensando nos problemas fundamentais do cerrado: sol é sinônimo de calor que é sinônimo de mais calor que, ainda mais quente vira sinônimo de fogo. O avião seria símbolo da urgência, sair correndo, voar para longe o mais rápido possível em caso de fogo.

Mas Niemayer não era besta. Sabia que nada torra em Brasília porque o calor é seco, então o avião virou símbolo da modernidade e não da urgência. Gostaram da idéia e dizem ter transformado Brasília em capital.

Mais interessante do que a forma de Brasília é o seu conteúdo. Já ouvir dizer que Brasília atrairia gente de todo tipo em busca de uma vida melhor. Mas a adaptação fundamental a esta nova cidade passaria não só pela adaptação econômica, mas também pela adaptação fisiológica de seus supostos habitantes. Em terra quente e seca os indivíduos podem continuar a usar terno e gravata, pois o sol faz arder, mas não faz suar. Andam pra lá e pra cá, circulando no corredor principal do avião, indo ao toilette de vez em quando, sentando em poltronas confortáveis e ligando televisões individuais. Não transpiram, então economizam água, pois não a bebem com frequência nem se tornam neuróticos com o lavar roupas, carros e calçadas. A falta de água no organismo causa ressecamento da pele, como no chão do cerrado. O povo que dizem lá viver, para amenizarem o desgaste da pele seca, enrugadas, da velhice precoce, parece andar com um paninho num bolso e com uma garrafinha de água no outro. Mas não é água potável, pois a falta de sede seria menos importante que o excesso de rugas: molhariam o paninho de água e colocariam na cara até que a última gota fosse absorvida. Pensariam nas rugas, mas dizem esquecer das pedras nos rins. Sem suor, sem sede, sem urina e com pedras nos rins. Parece que os hospitais de Brasília recebem todo ano uma quantidade gigantesca de gente sem rugas e com pedras nos rins. O problema todo vem do sistema de educação que não teria tempo de ensinar aos pequenos que beber água é mais importante que coloca-la na cara. Não teriam tempo porque as escolas fechariam 10 vezes ao ano, quando a taxa de umidade relativa do ar passa abaixo dos 10% . As crianças não ficam horrorizadas porque seus lábios ressecados racham, mas porque os cabelos, outrora dominados pelos secadores e chapinhas ficam duros como piaçava!

Não conheço Brasília, mas acho que a próxima vez que encontrar alguém sem rugas, com cabelos de piaçava, de terno e gravata sem suar, mas se contorcendo de dor por causa de pedras nos rins, saberei de onde ele vem. Só então os habitantes de Brasília poderão se tornar reais para mim: porque os reconheço no meu retrato. Brasília? Ah, será sempre utópica uai!


Naiana Bueno é paulistana, filósofa, migrante e boa observadora. Renato Bock é economista, hipocondríaco e habitante sem suor de Brasília.


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