quinta-feira, 10 de maio de 2007

Curtindo a vida adoidado

Lembra daquele filme chamado “Ferris Buller's day off” e que foi traduzido para Curtindo a Vida Adoidado? O Filme tinha como estrelas Mathew Borderick (Ferris Bueller), Alan Ruck (Cameron Frye), Mia Sara (Sloane Peterson), Jeffrey Jones (Dean Edward "Ed" R. Rooney) e uma Ferrari de coleção do pai do Rooney. Além disso, vinha com aquela música fantástica do Sigue Sigue Sputnik. Bom, os jovens se divertiam a valer na Ferrari do colecionador matando aula numa típica atitude norte americana, classe média, casaco de time universitário com as mangas brancas e o meio vermelho felpudo.

Bom. Me senti o próprio Ferris quando fui ao hipermercado curtindo uma de portador de necessidades especiais temporário. Parei na vaga de cadeirantes, chamei o carrinho elétrico e fui.

Cara, o carrinho do Wall Mart é um lixo. Muito lento. Deve ser modelo popular. Agora, o modelo do Extra era praticamente a Ferrari. 2.0, banco de couro e uma cestinha linda na frente. Andava pelos corredores ultrapassando as pessoas como se estivesse numa prova em Interlagos. Ultrapassava e ainda encarava os transeuntes, com meu cenho fechado e sobrancelha baixa, pensando: “Anda logo seu Bípede!!!”

A namorada de Ferris, sempre aflita, pareceu não curtir a lentidão do primeiro carrinho mas também, apresentou aflição com o Ferris cantando “twist and shout” feliz da vida numa parada tipicamente norte americana. A minha achou muita extravagância para um momento como aquele.

Curti à vera fazer a curva em duas rodas, saindo da sessão de utensílios de cozinha para a sessão de produtos de limpeza. Tirava finas dos azeites em promoção e cronometrava quanto tempo levava para percorrer a sessão de chocolates.

Mas nem só de diversão vive Ferris. Tem o diretor chato da escola e os pais desconfiados. Tem gente que te olha torto te achando muito feliz para ser “estropiado”, tem gente que te olha com pena. Gente que te deixa passar e comenta com o companheiro: “Coitado, num pode andar”.

Tem as dificuldades práticas pois, o carrinho é fantástico, mas o problema está na disposição dos produtos nas prateleiras. Os muito em cima e muito em baixo não são alcançáveis desde o carrinho. Dessa forma, o padrão de consumo de um cadeirante ou outro que precise do carrinho no supermercado está limitado às prateleiras do meio. Algumas frutas não se pode nem sonhar. Maçãs? Somente aquelas podrinhas que ficam na parte de baixo da gôndola. Batatas, cebolas, tomate? Esquece! Você só consegue alcançar as mais da ponta que são o refugo do que sobrou do dia anterior. Por mais que a cadeira seja parcialmente giratória ela fica longe de ser uma ótima solução para quem precisa. Ela é sim um avanço. Mas claro, ainda precisamos de muitas outras adaptações para que os portadores de necessidades especiais sejam respeitados ao menos como consumidores. Eu sei que minha condição é passageira mas, muito importante para sacar muita coisa boa e ruim.

Nesse momento já troquei o carrinho e as muletas por uma bengala mais parecida com uma “Dotanuki*” mas isso é estória para um outro dia...

* Dotanuki é uma espada de guerra utilizada no Japão do período Edo (1600 dc a 1867 dc)

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