sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Reverberando manifestações.


 
                                  Foto: ©Greenpeace/Tico Fonseca

Desde Junho temos vivido manifestações diárias e difusas. Na semana de 30/09 a 05/10/2013, por exemplo, cerca de 1500 indígenas estão acampados na Esplanada dos ministérios em Brasília. Estão agrupados para celebrar a constituição de 1988 e evitar sua morte, caso sejam aprovadas emendas como a PEC 215/2000 e o PLP 227/2012.

Manifestações esparsas e desideologizadas, talvez até impregnadas de uma falta de sentido ou de um descolamento da visão sistêmica. Manifestações de grupos privatizados com pautas específicas e falta de uma coesão ideológica que nos agregue a todos. Desunião conservadora, elitizada e afastada dos tratos populares. Uns falam em redução das tarifas dos ônibus urbanos, outros contra a corrupção, pelos direitos dos homoafetivos, contra a PEC37, por plano de carreira dos professores, por reforma política, contra o programa mais médicos, entre tantas outras pautas iconizadas pela desagregação típica da pós modernidade.

Ora, esta visão é simplista e ela sim, desagregadora. A partir da década de 1960 na América Latina viu-se marciais à frente dos poderes nacionais e uma massa de militantes contra a ideologia dominante. Nesta data, nem tão querida, havia “lado”. Havia direita, havia esquerda, havia conservadores militares e havia progressistas. Havia EUA e URSS, havia cabelinho bem cortado e havia os revoltos compridos, e tantas outras opções claramente dicotômicas a serem feitas.

Não importando a vontade ou a afeição de cada opção, realidade é que cada uma das sensações era passional e as opções maniqueístas eram permeadas por uma ideologia e um conjunto de valores dominantes. Optar contra a ditadura significava, imediatamente, aderir à ideologia da “esquerda”, unir-se à vermelhidão soviética, às vestes hippies e a gostar de Violeta Parra e Victor Jara.

Essa ideologia da esquerda proveio de manuais da época da revolução industrial, de outubro de 1917 e Maio de 1968. Em uma dessas obras, uma das percepções mais interessantes era a de que a superestrutura política e as relações sociais emanavam das relações diárias de produção. Era de “O Capital” do Prussiano Karl Heinrich Marx a concepção de que as relações diárias, corriqueiras, do âmbito da produção cooperavam para conceber o traço da ideologia e, a partir delas, constituir-se-ia os princípios do que se tornaria sistêmico. Era das conversas entre trabalhadores oprimidos na linha de produção que erigir-se-iam as ideias que conformariam uma ideologia, que cooperaria para formar a superestrutura política de governo e, assim, o sistema social se estabeleceria.

Dizia ele eu seu livro: “(...) na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e á qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual. “

Ora, outra vez. Nas ultimas décadas do século XX os movimentos eram calcados na ideologia para poder mudar a orientação social. Fazia-se a opção ideológica e, baseado nela, encaminhavam-se as pautas práticas.  No século XXI, após a constatação de que o sistema social avançou menos do que se esperava no século anterior, toma-se uma nova atitude. Inverte-se a lógica. Pautas práticas, específicas, esparsas, corriqueiras, menos ambiciosas tomam o lugar das grandes questões assim como conversas minimalistas no ambiente laboral.

Lembra que destas relações minimalistas, práticas, pequenas, no ambiente de trabalho, no trato diário, é que se erige a superestrutura política de onde emanam os aparelhos de governança que fortalecem a visão sistêmica e a conduzem para transformar-se em Sistema Social Vigente? Assim, as manifestações esparsas, minimalistas, pragmáticas, pequenas, pintam-se de relações diárias, de relações de produção para que, quando atendidas, façam erigir sobre si um aparato político social que, por fim, e respeitando o processo histórico, amparem transformações sistêmicas mudando o Sistema Social Vigente. É só uma diferença de método: Em 1960 nos alinhávamos ideologicamente para depois aplacarmos as atividades que refletissem esta ideologia. Agora, enfatizamos as atividades para depois erigirmos sobre ela a ideologia.

Disse o barbudo outra vez: Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes. 

Sobrevém então uma época de revolução social. Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma.” 

Mas péra: Essa visão das pautas diárias, das relações de produção, erigindo sobre si uma superestrutura política que tece o sistema social não é calcada nas letras do livro  “O Capital” do Barbudo que serviu de Manual para a ideologia da esquerda? Pois então, onde está a privatização conservadora e direitista do momento?

Seguimos manifestando. Estamos fazendo nossas relações de produção. À frente veremos a superestrutura que estamos gestando.

 

Renato Bock

3 comentários:

  1. Tamu junto! Manifestando para transformar!

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    1. É isso né Li? Manifestações Freireanas sempre!!!

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  2. Exato Renato, e a vida, o concreto, continuará sendo a síntese das multideterminações. Abc Edgar

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